27 maio 2010
Do tempo
É que eu não te contei um segredo
Dentro de mim mora outra
Que já está lá na frente
Quase formada, morando fora de casa, decidida, viajada
Pra ela não tem ruim, não
Faz tudo que quer e acha certo
Já superou o problema com comida, tirando as carnes (óbvio)
Faz dança, caminha no parque
Vê os amigos todos os fins de semana
E eu aqui, nesse marasmo
Querendo competir
Com minha própria fantasia
26 maio 2010
Te vejo acordar
Sempre que olhava para aquele corpo aconchegado no cobertor macio, eu sentia prazeres intensos, inconfessáveis de tão puros. Ela era bela, clara e de cabelo escuro, tinha olhos profundos que carregavam as marcas do sono tardio. Acompanhando seus movimentos matutinos, me sentia completo, como um ser que busca na existência do outro, motivos para existir. Na realidade não era isso, era simplesmente bom ficar olhando ela acordar.
Nesta manhã, ela levantou um pouco depois das nove horas, vi quando se revirou uma e outra vez na cama, cobrindo a cabeça com o cobertor. Então começou a se esticar, estirar os músculos do corpo pra se livrar das garras do sono, levantava os braços brancos, punhos fechados. O cabelo todo bagunçado e a roupa meio revirada provavam a noite boa, hoje ela dormiu com uma regata branca e uma calça cinza, dessas de dormir. Seu corpo parecia aquecido, pele macia e descansada, como são as peles das moças ao despertar. Tocar em um corpo recém acordado é motivo de grande prazer, demonstra intimidade, abraçar alguém que acabou de acordar e ouvir assim de perto, os sussurros das primeiras palavras do dia, é simplesmente inexplicável.
Em seguida ela levantou e fechou a janela para poder se vestir. Acabou. O reflexo do espelho que vejo pela janela aberta, todos os dias, acabou. Esperarei o pijama de amanhã.
25 maio 2010
O Último dos Espelhos Mágicos
21 maio 2010
Reflexão
19 maio 2010
Eu só preciso de uma sala de espelhos
Mas, Renato, se teu tempo que usas em mim e portanto meu se torna, se teu tempo fosse para ti usado, serias mais feliz porque te olharias e te reconhecerias e tornarias a olhar-te para o espelho: assim como fiz eu.
Via no espelho as raízes mortas de uma planta não-planejada,
planejada não para mim, mas para um futuro que deveria ser diferente
rente a um sonho do infinto. E estas raízes mortas meio vivas
vivas no meu ser, no meu inconsciente
ciente do perigo de uma possibilidade imperfeita
feita para não para mim, mas para nós, um em redor
(duma) dor para aprender.
Eu tinha um sonho.
E nesse sonho eu era tão feliz.
Não no cotidiano pensado de cada dia.
Mas no viver inexato em que eu sentiria
as noites minhas.
Eu tinha um plano.
E nele estava eu bem sozinha.
(Padeceu em meio a um confessar
De novos planos).
Eu tinha um sonho.
E foi tão bom.
Pena que nele eu não
te incluía.
música espelhada
18 maio 2010
O dia em que saí do quase
Estranhamente o sentimento era de alívio, apesar da decisão não ser sua, e isso lhe impressionara. Respirou fundo, se sentiu viva. Solitária, mas viva, independente, podia agora fazer o que quisesse sem depender do consentimento, dos horários, da rotina, da opinião desse outro alguém que há tanto tempo habitava sua vida.
Voltou para casa, se sentou no sofá e foi conversar com a mãe, falar de filmes, livros, de como fora o dia – o que tanto gostavam de fazer e se repetia por todas as noites – tudo isso como se nada tivesse acontecido. O início de sua vida de conquistas, uma após a outra, era este. Sabia e precisava caminhar sozinha, sentia necessidade disso, sem temer mais o futuro, que agora dependia apenas de sua vontade e não da decisão dele sobre que rumo tomar. Chegava de incertezas quanto à durabilidade daquela história, daquele amor. Ele mesmo lhe dissera que quando se há dúvidas sobre alguma coisa é porque já se deve então colocar-se um fim nesta. Bastava, então, de quases, de proximidades, de metades! O que agora virara sua busca incansável são as conclusões, a convicção, a sensação de completude.
Fora preciso, no entanto, perder metade de si para sentir-se inteira.
meu espelho
- Mas não era para ser assim.
- Quando vão começar a ensinar que o mundo não vale tanto esforço?
- Quando vão começar a ensinar que o mundo não vale tanto esforço?
- E os outros?
- E os outros?
- Eles estão sentindo isso também?
- Eles estão sentindo isso também?
- Meu tio disse para eu viver a minha vida. Só a minha vida.
- Meu tio disse para eu viver a minha vida. Só a minha vida.
- Eu só não sei bem como se faz.
- Eu só não sei bem como se faz.
- Eu não sou independente.
- Eu não sou independente.
- Eu não tenho dinheiro.
- Eu não tenho dinheiro.
- Eu aprendi algumas coisas, é verdade, mas há tantas outras ainda.
- Eu aprendi algumas coisas, é verdade, mas há tantas outras ainda.
- Às vezes eu queria conseguir abstrair tudo.
- Às vezes eu queria conseguir abstrair tudo.
- Tudo.
- Tudo.
- Ou sumir.
- Ou sumir.
- Quando chove.
- Quando chove.
- Tem uma arma no fundo do armário lá em casa.
- Tem uma arma no fundo do armário lá em casa.
- E daí?
- E daí?
16 maio 2010
Espelho Retorcido
Há alguém, mais feliz do que eu?
Tive dois níqueis, mas fui roubado
Duas moedas de mais valia
Tê-las comigo, era só o que eu queria
Um guarda-chuvas queria ter comprado
E de gotas tristes ter fugido.
Do amor, e seu gosto venenoso,
E do cupido, em seu plano ardiloso
Preferia eu, ter morrido
Nem só de amor o mundo é feito.
A depressão derruba e dá risada.
Ter esperança é meu pior defeito.
Achei vinte niqueis, logo na ida.
A frustração pode ser recompensada,
Redescobrindo o amor em nossa vida
Abri meu coração, e tudo foi resolvido.
09 maio 2010
Quase emprego
Talvez você não esteja familiarizado com esse tipo de pessoa, por acaso já conviveu com alguém assim? Ainda não consegue visualizar o tipo de pessoa que era a Judite? É, isso que dá escrever, se eu mostrasse uma foto talvez pudesse ajudar, mas acho que a foto da Judite não transmite o que ela realmente é, teria que ser uma foto muito boa, feita por um profissional qualificado, ou com uma boa câmera. A minha é meio velha, digital, mas sem frescuras. Eu adoro fotografia, longe de mim criticar as novas tecnologias, mas é uma loucura ver gente com uma baita câmera tirando foto pra botar no Orkut...
Agora lembrei, a Judite tem Orkut! Sim, é bem mais fácil conhecer ela por lá, porque dá pra saber dos gostos da pessoa, e dos amigos também. Vai que você conhece a Judite e nem sabe? Se bem que o Orkut é muito superficial, e não dá pra ver, realmente ver como ela é.
Assim, a Judite gosta muito de gente, ela fala tocando nas pessoas, sabe? Segurando o braço, o ombro. Ela encosta, ela toca, ela quer sentir a outra pessoa, por isso quando fala parece que tá entrando assim, dentro dos nossos olhos, de tão intenso e próximo que é o olhar dela.
Isso não é tão incomum assim, sempre tem alguém mais intimista no grupo de conhecidos das pessoas, os mais tímidos não gostam desse tipo de pessoa, “é muita aproximação”. Mas vai falar isso pra Judite! Ela representa a aproximação...
Bom, nem tanto assim, porque eu acho que ela não se aproxima de verdade, assim, de verdade verdade, de ninguém. Se fosse assim ela não teria se separado mais de quatro vezes. É, ela é muito ativa, não pára quieta!
Foi um antigo namorado dela que me ligou pra conversar, disse que ela tinha passado meu número pra ele. Renan, eu me lembro dele, um careca, alto e meio musculoso. Não era feio, mas ela não gostava porque ele lambia a orelha dela. Eu também não gosto dessa coisa de lamber a orelha. Dizem que é bom porque a orelha é um órgão sexual, mas eu não acho. Orelha é uma coisa meio suja, com gosto ruim... Não que eu já tenha lambido a orelha de alguém. Como se eu pudesse também, meu último namorado não deixava nem eu mexer no cabelo dele pra não bagunçar, imagina lamber a orelha! Pois bem, Renan, o lambedor de orelhas, me ligou pra ver se eu estava interessada. Não na lambida, mas em um trabalho.
Ele trabalha em uma firma de computação. Nunca sei o que uma pessoa faz quando me diz que trabalha em uma firma de computação. Aliás, alguém sabe o que uma pessoa que trabalha em uma firma de computação faz, durante 8 horas, lá? Enfim, ele “trabalha” lá. Eu não conseguia entender o que poderia ter de trabalho pra mim, porque eu mal sei usar o computador, além das funções básicas. Mas ele me chamou, disse que a louca da Judite tinha me indicado pra um cargo lá no trabalho de computação dele e como nenhuma vaga pro meu perfil estava disponível ele me passou pra um contato em outra empresa.
Eu não sabia se aceitava ou não, “é história da Judite!” minha irmã dizia, mas eu achava que algo podia dar certo, e fiquei de ligar pra lá. Passou uma semana e eu ainda não sabia se ligava ou não. Era uma editora, pelo que o lambedor tinha dito. Eu não poderia trabalhar em uma editora, sou muito burra pra isso. O meu ex me disse que eu não sei ler mais que Sidney Sheldon e que eu era muito burra, por isso que ele foi embora. Mas a minha prima de segundo grau me garantiu que não tinha que ser muito inteligente pra conseguir a vaga... Foi aí que eu liguei...
Mas não consegui o emprego. Tinha que escrever o nome de cinco livros extrangeiros e falar um pouco da história. Mas não podia repetir... Quando eu disse que não sabia o que escrever e que por isso ia desistir da vaga, o moço me disse: “que pena, com esses contatos que você tem, quase conseguiu o emprego...”