01 janeiro 2011

Inocência tinha cinco anos. Aquela idade curiosa, em que se quer saber de tudo, em que sempre se quer mais, em que sempre se espera mais. Inocência ainda não sabia ler, não tinha livros, mas queria uma história todas as noites. Os pais se lamentavam. Não compravam livros, a menina nem sabia ler, mas tinham que inventar ou lembrar uma história todo dia, sempre uma novela na hora de dormir. Pinóquio, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Cavalo Baio, aquela coisa. E estava ela lá, mais uma vez, esperando a historinha com aquela carinha de criança. De criança cheia de expectativas. Tinha sido um dia longo, cansativo. Problemas pra resolver, contratos pra assinar e as pessoas para atender. O pai estava estressado. Queria dormir.

“Pai, me conta uma história!”, soou a voz de Inocência.

“Conta, conta, conta, conta”, quando ele apareceu à porta do quarto de paredes lilás.

“Era uma vez uma menina muito esperta e curiosa. Mas ela incomodou quem não devia, quando não devia e então o velho do saco a levou para bem longe.”

“E aí pai, e depois? O que aconteceu?”

“Nada. Esse é o final, Inocência.”

Juliana e Priscila

- Ó gentil cavaleiro que tão sublime e perigosa descoberta me provocastes. Teu suor e sangue me despertam compaixão, tua valentia...

- Ó generosa donzela, acaso não sabeis que o que sentis em nada se assemelha a compaixão? De minha parte ao menos posso dizer-te, eu que só tenho causado dor e sofrimento, que só sei causar a morte, cavaleiro negro sem crença nem rei, vejo nascer por ti devoção sem par.

- Tua coragem me causa arrepio, tua espada afiada destrói famílias assim como meu coração. Só viverei mais um dia se te puder ensinar a amar.

- Minha vida é matar, mas teus olhos me fizeram descobrir a esperança de uma vida onde a armadura seja o carinho de uma família e a espada seja a força da paixão.

- Vais então dizer-me estas palavras tão belas, dar-me esperança, alimentar um sentimento que a tanto custo tento abafar, mas que resiste a pleno e já me sufoca. Oh! Não faças isso, que me contento com a solidão da vida, te vendo partir a cada nova batalha, sofrendo calada, morrendo um pouco a cada vez que recebo notícias da frente de batalha.

- Teu rosto não me sai do pensamento. Tua boca molhada vive a aparecer nos mais inesperados momentos. Sinto o peso do aço nas mãos e o quente do sangue no peito. Sonhei tanto com o dia em que os campos de batalha fossem distantes, mas hei de morrer sonhando. E morrer sonhando contigo. Pensei numa casa florida. Pensei em meninas de saias e em teu cheiro de flor do campo. Receio que isso fique no ar. Pois meu corpo não mais padecerá. Mas meu espírito por ti esperará.

Bibiana e Patrícia

Duelo Platino

Havia luta. Uma luta apaixonada.

Vejo as roupas deles empapadas de sangue.

Havia amor. Um amor raivoso.

Vejo as roupas deles empapadas de suor.

Cada golpe deixa marcas. Marcas no corpo, na carne do inimigo.

Quem é o inimigo? Não sei.

Os olhares curiosos não tomam partido.

Ele sente o último ataque, de joelhos pede um beijo.

Ela aceita o contragolpe.

Enfim, no tango, venceram. O duelo contra o próprio medo.

Said e Avelino

Este assento número 12 nunca me deu sorte mesmo. Se bem que esta paisagem de mato rasteiro sempre me lembra das tardes de infância no interior. Naquela época não tínhamos preocupações. Nossas tardes eram preenchidas com aventuras, nossa curiosidade nos permitia explorar o campo. Eu e meus primos adorávamos brincar de empinar pipa. A pipa da Dorotéia era a canarinho e o Fred sempre achava que a dele era mais bonita. Era mentira, a minha era a o “Grande Dragão Vermelho” cortando o céu azul.

A melhor parte das tardes era quando desbravávamos o celeiro. Já tínhamos encontrado vários objetos esquisitos no feno dos cavalos, porém nunca algo como naquele dia.

A vovó, como sempre, já estava fazendo o bolo de fubá, e o cheiro de café tão convidativo nos chamava a adentrar a casa e provar um pedaço do delicioso bolo.

Naquele dia, tardamos a entrar. O que estava por entre o feno foi algo fora do comum. Ali jazia um corpo nu com um machado cravado no crânio.

Daniela e Marcelo

Hoje é o meu dia, mas à noite eu quase não dormi. Imaginava elas vindo, com seus corpos vermelhos, desejando a minha carne e o meu espírito. Só assim eu posso ser um homem. Imaginava também como seria o contato da minha pele com elas, as sensações que subiriam pela minha espinha, até eu ficar anestesiado. Tremia só de pensar. Mas então eu lembrava que todo homem deve passar por isso, e que comigo não ia ser diferente.

A festa começou com a fogueira que foi acesa assim que o sol, aquela mancha sangrenta no horizonte, se pôs. Os outros homens me olhavam desafiadoramente. E elas já estavam lá também, inquietas, mas vigilantes. Os seus movimentos eram compassados pela batida do tambor. Ninguém era inocente ali. Todos sabiam o que tinha que ser feito. Confesso que senti medo, mesmo tendo sempre esperado por isso. Medo daquele tipo quando a serpente te espreita, o momento que antecede o bote, quando tudo fica quieto e parado, suspenso no ar, é inevitável e você sabe disso. Que acabe logo então! Que eu seja entregue a elas!

As saúvas, o sangue, a dor.

Agora não sou mais criança.

Natascha e Alessandra

10 novembro 2010

Dois dias

Entrou na escura avenida aumentando a velocidade. Mãos trêmulas ao volante, suor escorrendo pelo rosto e uma desesperada vontade de não parar. Seguir em frente, aumentando a velocidade, seguir indo, sempre. Ele fechou os olhos por um segundo.
Choque – um caminhão acelerava com direito no sinal verde.

Algumas horas antes.

Finalmente foi chamado. Entrou sorrindo, aliviado por poder resolver esse assunto e ir para casa. O problema intestinal iria facilmente ser solucionado com medicamentos e boa alimentação.
- Você tem câncer. Choque.

Um dia antes.

Chegou cansado do trabalho em casa, queria tomar um bom banho, jantar com a esposa e ver alguma comédia na televisão para não pensar em nada. Logo que entrou percebeu a TV desligada e estranhou, foi procurar Cecília. Ela estava no quarto do casal, sentada na cama com as pernas cruzadas e um olhar incomum. Ele se aproximou, perguntou o que estava acontecendo.
- Estou grávida. Choque.

05 novembro 2010

Choque

Todas haviam feito o serviço, só esperavam pela última, a mais velha, aquela que ninguém acreditava. Foi então que a galinha mais nova, gaiata, cacarejou:

- E aí minha tia? Quer que eu choque pra ti?

A senhora galinha ergueu o pescoço, olhou para cima e cacarejou muito alto:

- Choqueeeeee!

Em três segundos o galinheiro estava tomado pelo batalhão de choque da brigada militar, entraram atirando. Gemas, sangue e penas se esparramaram pelo lugar. No canto, tremendo, balbuciando algo que não se entendia, estava a galinha moça. Veterinários atestaram estado de choque.

Nostalgia

Pedi uma cerveja.

Ao ver a garrafa, lembrei do guaraná frisante que todos os dias comprava no bar da esquina. O tio me dava o troco em bala.

Bons tempos do guaraná frisante.

Quando eu voltava pra casa, todos na mesa de jantar estavam esperando, a mãe sempre fazia umas comidinhas gostosas, cheirosas. A mãe também era muito cheirosa, o pai vivia dizendo isso. Jantava, fazia o tema e ia dormir.

Bons tempos do guaraná frisante.

Pedi outra cerveja.

Distante está

Distante está,
meu coração do teu.
E minha língua suplica aproximar dos teus lábios.

Distante está,
meu coração do teu.
E minha saliva implora misturar com teu suor.

Distante está,
meu coração do teu.
E minha pele roga friccionar na tua.

Distante está,
mas esqueça o maldito coração.
Como a um velho louco não daremos bola,
vamos viver de tesão.

01 novembro 2010

GOSTO

Se um gosto pudesse ser o gosto da nostalgia seria o das balinhas Xaxá.

Abacaxi era o que vinha escrito na embalagem, mas hoje quando eu penso no gosto dela, é gosto de esperar o sinal bater para o recreio, é gosto de se preocupar com questões da profundidade da tarefa que tem que ser feita para segunda-feira ou em qual poema vou declamar no dia das mães; gosto de não ter que ficar escolhendo uma roupa para sair sexta à noite, esperando que ele me ache bonita, de não ter que lavar a roupa todo domingo ou pagar a conta do celular, gosto de brincar de esconde-esconde no final da tarde, de estátua e de casamento-atrás-da-porta pela manhã, gosto de olhar o mapa e viajar para vários países em uma leitura rápida do Almanaque Abril, gosto de dançar até começar a doer do lado da barriga e de fazer competição pra ver quem come mais brigadeiro na festinha de aniversário.

O gosto é doce, a lembrança chega salgada dos olhos até a boca.

Alessandra Boos