07 outubro 2012

saudade.

11 outubro 2011

terra

primeiro o tempo come os ossos
em seguida os retratos.

22 junho 2011

Círculo

Dançávamos Kids do MGMT em meio a todas aquelas pessoas que em frívolo julgamento aparentavam ser todas iguais, uma forma maniqueísta de ver caso tomemos a semelhança de suas roupas descoladamente alternativas e os cabelos levemente arrepiados enquanto dançavam, cantavam, estendendo as mãos para cima ao iniciar uma música nova enquanto as luzes chacoalhavam em um frenesi aquático. Nós também chacoalhávamos, não tanto em frenesi porém mais em uma sedução, visto que há uma diferença na dança da sedução do que naquela de apreciação dos sons. Quando se seduz, a cabeça move-se mais lentamente como se uma câmera cinematográfica desse close nos menores detalhes do pescoço, além de geralmente também se olhar para cima como se se invocasse alguma força misteriosa de dentro, talvez algo assim profundo..., a ponto de mexermo-nos lentamente como se não milimetricamente planejássemos cada passo, olhar, toque, palavra no ouvido que, mais do que nunca, sabemos que é dita qualquer bobagem sem o menor sentido senão o de colocarmos a boca no ouvido à espera de que o jogo da luxúria frua como a música que custa a sair do corpo, uma energia flutuante que faz os pés queimarem precisando sair do chão. Uma de suas palavras, contudo, quebrou meu estado de automaticismo, era qualquer coisa como:

- Envelheça comigo - uma mão no meu ombro e outro no meu braço do lado oposto. Pedi que repetisse, não sei se pelo enunciado soar fora de contexto ou se pela vontade de que colocasse a boca perto do pescoço novamente, sei que pedi e ouvi de novo as mesmas palavras. Um pouco de receio tive. Entretanto, controlei o temor e fui extrair o que podia, indaguei: "e como será sua velhice?". Rodeada de pessoas gentis, respondeu, talvez vivendo em uma casa com alguém que amasse, usufruindo daquilo que obtive na vida e nas tentativas de dar a volta em mim mesmo. Foi uma resposta boa, pensei na hora, tomando como inusitado aquele diálogo em meio às mesmices de sempre, as pessoas cantando, dançando e se encarando como cadelas no cio loucas para. Amargura um pouco ver recortes dos passos de lobos encarando seus carneiros que almejam com todas as forças se tornarem lobos por mais que nunca o possam, visto que, uma vez carneiro, sempre carneiro, a vivência de lobo é de algo deveras escura e misteriosa, não a ponto de instigar a descobrir, mas sobretudo naquele sentimento que nos move pela fuga.

Moveu-se pela pista e voltou com uma bebida, o álcool que degrada, instalando-nos mais perto daquilo que chamam de época branca cujo principal hábito será reclamar das músicas altas e sem qualidade dos jovens de hoje, jovens que não fazem nada além de frequentar os mesmos locais, ouvir as mesmas músicas e viver as mesmas sensações, acreditando saber da novidade. Bebeu um gole e perguntou-me outra vez, envelhece comigo? E respondi rápido que nem sei se quero amanhecer com você, quem dirá envelhecer

quem dirá saber de minha vida de depois
como se um baú todo cheia de roupas
onde as traças adoram se meter
formando buracos, armando barracos
sem se esquecer de meus velhos trapos
cujos pedaços em uma era já vesti
e guardo fotos como pequenos recordos
dos bichinhos que em mim já habitaram.

Habitou-me e eu em seu contrário. No meio da madrugada fui-me embora, pensando em que na semana que vem o mesmo lugar teria uma festa boa, e no outro final de semana também; aliás, todo o mês estava perfeito naquele lugar, os donos possuem uma boa visão de negócio...

 *


Vários anos se passaram. Nunca mais apreendi qualquer coisa que me fizesse recordar desta noite, até o dia em que, com meu Amor Maior, trocamos juras de eternidade e prometemos morrer juntos sem nos importarmos com as eventuais quedas de cabelo. A vida é uma sequência de ilusões, refleti.

20 junho 2011

Muita felicidade

Começaremos nossa empresa juntos, jovens e promissores. E eu vou dar pulinhos de felicidade a achar que a vida finalmente entrou no rumo, que aos 24 anos eu sou uma pessoa segura e que trabalho no que gosto. E vamos fazer muitas festas e cultivar nosso grupo de amigos, viajar juntos e perceber que tudo é belo e que maravilha ter toda a vida pela frente.
Somos parecidos nisso, não gostamos de regras nem de médicos. Mas o que pra ti vai ser uma opção, pra mim vai ser uma cruz. A pele vai se modificar, os momentos de dor e fraqueza vão se intensificar, e não vou mais conseguir botar a culpa na umidade ou no excesso de trabalho. Então alguém muito chato me obrigará a ir ao médico e tudo vai ficar claro. Porque a vida não tem nada de maravilhoso, nem de romântico, ela acontece enquanto tu sonha e acaba logo, muito rápido quando se é um grande sonhador. Vai ser tarde, vou me martirizar por nunca ter notado, por nunca ter procurado saber e eles vão dizer que a batalha é difícil, que se tivesse descoberto antes... E eu nunca vou chegar a viver aquela velhice tranqüila e matreira. Vou morrer de câncer tão rápido que só vocês irão se lembrar de mim.

Poeira

Fragmento

Pela lente observo o passo,
                            [O moço passa...]

E o descompasso do moço.
                            [Inerme o tempo]

Retratos do passado.
                            [A todo o momento]


19 junho 2011

O mundo dentro de uma caixa - Parte 01

Depois de insistentes 30 minutos de pedidos, gritos, carinhos e bufadas, dei ouvidos à minha mãe. Saí do sofá e lá fui eu arrumar meu armário/guarda-roupas/guarda-aquelas-coisas-que-não-cabem-na-gaveta.
Quando abri a primeira porta fui surpreendida por um ataque rasante de um objeto voador. Era um playmobil muito a fim de sair de onde estava. Veio com tudo na direção do meu olho, como kamikase com ânsia de não chegar o fim.
Era um playmobil antigo, daqueles que nem mexiam as mãos. Se você já teve um playmobil sabe do que eu to falando. Se não sabe quem eles são, eu preciso te dizer que playmobil são os brinquedos mais incríveis do mundo.
Porque playmobil é um bonquinho gorducho, com cabelo de tupi com franja, que só mexe o braço pra cima ou pra baixo, e as pernas, sentado ou de pé. E mesmo com seus movimentos super limitados, eles conseguiam ser piratas, médicos, pescadores, esportistas, marinheiros, donos de circo, amantes, amigos, irmãos.
Me faziam perder noites à sua espera na chegada do Natal. Me faziam esquecer do tempo descobrindo suas histórias. Me tornavam parte de suas aventuras. A gente ia pra lua, pra floresta, pra esquina da minha casa, pra todos os lugares que eu sempre quis ir e nunca tive companhia.
Bom, isso tudo acontecia pelo menos na minha cabeça de 7 anos, na época em que eles não se atiravam de uma caixa de papelão velha de cima do armário/guarda-roupas/guarda-aquelas-coisas-mais-incríveis-de-nossa-história-que-nos-deixamos-esquecer.

O mundo dentro de uma caixa - Parte 02

Uma semana depois de ter desistido de arrumar meu guarda-roupas para catar o restante dos playmobils, me deparei novamente com um par de portas fechadas à minha espera.
Não era preguiça, não era só falta de tempo. Eu não queria arrumá-lo porque sabia que lá dentro, atrás das roupas que não servem mais, havia uma caixa embalada por um papel brega da década passada, com retalhos de lembranças transcritas em papel de carta.
E ela não estava lá por acaso. Estava atrás da pilha de roupas velhas, no canto onde o campo de visão não alcança, mas o suficientemente perto pra não se tornar esquecida.
De histórias de amor e desgastes de histórias. De todas aquelas coisas que já foram presente e constância. Tentava ignorá-la e todo seu conteúdo.
Na verdade ela havia se tornado intocável, na expectativa que o tempo a empoeirasse, e com a poeira, ofuscasse todos os vestígios ali contidos. Esperava que a poeira que vem com o tempo levasse consigo todas aquelas lembranças.

14 junho 2011

Das mágoas e pedras

Por desejar muito chorar, entrei em conflitos nos últimos dias.

Quando criança, qualquer tristeza era motivo de choro, e qualquer choro limpava a alma. Chorava até cansar, até doer a cabeça, até pesar os olhos, até esgotar todo sentimento ruim. Até esquecer e voltar a sorrir.

Hoje em dia, sinto um acúmulo de decepções, mágoas e frustrações que pesam feito pedras. Recentemente me peguei tentando forçar o choro, numa vontade enorme de expelir a dor, porque era o que acontecia antes. Não consegui.

Com a idade percebi que nossas mágoas são mais profundas e complexas, mas ao mesmo tempo, são mais fáceis de serem encaradas porque nos acostumados – aliás, o grande segredo da vida, o ato de se acostumar. E, quando finalmente consigo chorar, poucas são as lágrimas, e elas já não lavam mais nem fazem esquecer. Não podendo tirar as pedras de mim, carrego-as como história.

Daí, num dia recente, eu me deparei com mais um desses episódios que sucedem as fases boas da vida. Os dias ruins, os dias chuvosos, as vacas magras - como queiram - estavam por vir. Nada mais cotidiano. A grande diferença, desta vez, estava em mim. Foi uma decepção, não menos dolorosa que as outras, mas que aconteceu sem surpresa alguma. Eu já esperava. Ou melhor, aprendi a não esperar muito da vida e das pessoas.

Então aqui estou eu escrevendo, mais uma vez, por uma mágoa sem lágrimas que não passa, só se esconde. E esperando que ela também se solidifique através do fator - outrora o choro - que mais me castiga porque mais demora a reagir, o tempo.

13 junho 2011

pa papa pa pa

"Na hora de bamo já se fumo!"
Ele costumava dizer, alegre, antes de pegar o carro. Às vezes ao levantar da poltrona. A seqüência era invariavelmente a mesma. Sentava no banco do motorista puxando as pernas das calças um pouco para cima. Olhava-se no retrovisor e penteava os cabelos para trás com o pente que carregava sempre no bolso das camisas. Nunca tinha um fio fora do lugar. Botava os óculos, ligava o rádio, aquelas músicas de vô, e nós saíamos. Ele tinha pelo carro um zelo que eu jamais vi em outra pessoa. Não tinha pressa. Dirigia com calma. Sabia que não havia necessidade de correr, onde quer que se tivesse de chegar, ele chegaria. E assim era quando me buscava ou levava em casa. E tantas outras vezes quando me levou ao dentista ou me buscou nas aulas de inglês. Quando me buscava no colégio, quando eu ainda era criança, ele ficava parado ao lado do portão. A chave pendurada na calça. As mãos nos bolsos ou os braços cruzados. De pé. Sempre alto, mais alto. Meu vô foi o único homem com aparência e postura frágeis ao mesmo tempo que fortes. Não sei dizer se ele era forte na fragilidade ou frágil na força. Penso que os dois. Acordava cedo todos os dias, mesmo no inverno. Tratava e soltava as vacas. E no fim do dia as trazia de volta. Cuidava de todo o terreno. Lembro-me dele tamborilando os dedos no braço da poltrona que era a dele. O som do bater dos dedos sobre o couro. O som do esfregar dos dedos uns nos outros enquanto subiam e desciam tamborilando a poltrona. Como se fosse ontem. A pele lisinha e gelada de velho que eu esticava para cima, brincado e querendo que a minha fizesse a mesma coisa. Ele forrava o carrinho de mão com cobertores e passeava comigo nele no pátio. Ficava ao lado quando eu andava na Sucata, a égua preta que foi a única por lá. Ele cochilava vendo as novelas do fim da tarde. E a poltrona hoje mudou de lugar. Mas é como se ele ainda estivesse lá. Como se eu fosse passar pela cozinha, entrar na sala e vê-lo lá, tamborilando os dedos. Quando pega na minha mão enquanto eu durmo e me diz pra não chorar. É como se ele ainda estivesse lá, esperando a gente chegar pro churrasco domingo. Tamborilando os dedos na poltrona.

12 junho 2011

A guerra.

Ouvidos atentos a eminência de passos.
Qualquer ruído seria esclarecedor. Prova de choque.
Olhei para o relógio. Apontava perigo.
Olhei para os dois lados em busca de inimigos. Mesmo aqueles que se pareciam fora de rota. Muito suspeitos.
Se demonstrassem interesse, sairia correndo. Não era fuga, era vitória.
As armas: sabonete e toalha.

Tomar banho às 22h numa casa de estudantes não é fácil.

"Vem cá, bom menino!"

O que eu vou dizer agora pode parecer meio agressivo. Mas eu não gosto de gatos.
Não que eu os odeie. Simplesmente não sou fã. Tanto é que eu reconheço suas qualidades.
São bichinhos peludinhos, que geralmente cabem no colo.
São manhosos, tomam leite, são levinhos.
São quentinhos e limpinhos que se enrolam nas cobertas.
E ainda brincam com lã na maior delicadeza.

Mas ontem vi minha irmã chorando porque o gato dela fugiu. Me contou angustiada que essa era a terceira vez que ele fazia isso. Limpando as lágrimas com as mãos trêmulas ela ainda falou que não saberia o que fazer se acontecesse alguma coisa com seu amiguinho peludo.
--
Nossa conversa aconteceu um pouco depois de eu ter chegado em casa e, como de costume, ter sido recebida por um rabinho abanando e a língua de fora do meu vira-lata chamado Scot.

Chocolate ou cerveja?

Bom, eu não sei, mas sempre depois de uma boa conversa as coisas tendem a render.

Fiquei pensando, se fosse pra dizer, chocolate ou cerveja?
Chocolate tu come.
Cerveja tu bebe.
Chocolate dá espinha.
Cerveja dá barriga.
Chocolate pra lembrar.
Cerveja pra esquecer.
Chocolate é Tpm.
Cerveja é qualquer coisa.
Chocolate de qualquer jeito.
Cerveja só gelada.
Chocolate dor de barriga.
Cerveja dor de cabeça.
Chocolate dá peso.
Cerveja consciência pesada.
Chocolate preferido.
Cerveja em promoção.
Chocolate no frio.
Cerveja no verão.
Chocolate é desculpa.
Cerveja, desculpa.
Chocolate.
Cerveja.
Cerveja e chocolate.

31 maio 2011

15 gatos e uma cozinha grande

- Se ganhar na loteria, te dou um apartamento.
- Mas o que te faz pensar que eu quero sair de onde moro?
- Não sei, tu vive a reclamar do teu irmão e das bagunças dele, achei que quisesse.
- É, isso me atrapalha. Mas fora isso, não é tão ruim assim. Sairia daqui apenas pra morar em uma casa com 15 gatos.
- Então, se eu ganhar na loteria, te dou uma casa com um gatil nos fundos. E uma cozinha grande, e uma sala de TV com acústica de cinema. E um ofurô.
- Mas porquê tudo isso?
- Quero que nossos amigos venham jantar na cozinha grande. Depois assistimos a filmes bons, bebendo vinho, e rindo na cara da vida.
- Como assim? Decidiu agora que vai morar comigo? Rindo na cara da vida, onde tu aprendeu essa expressão?
- No mesmo lugar onde tu aprendeu a ser a chata que questiona tudo.

Aquela dúzia de vacas

Meses sem se falar, anos sem se ver pessoalmente. Em tom de piada, ela envia a ele o link de um site que descrevia uma promoção cruel:
Visite todas as vacas da Cow Parade em PortoAlegre, fotografe, e envie para nós. Presentearemos todos que completarem essa tarefa com uma cesta de produtos da nossa linha de laticínios.
Era uma piada, ela enviou porque achou absurdo que alguém se daria ao trabalho de dar voltas pela cidade, durante dias, fotografando vacas. Ele tomou como um convite.
Como ela não sabia dizer não a ele, e sentia saudades da época que eram próximos, aceitou. Andaram durante toda tarde pela cidade, fotografaram muitas vacas da zona norte e do centro de Porto Alegre. Conversaram sobre todos os assuntos que ainda pudessem ter.
Antes que marcassem uma segunda tarde de perseguição às vacas, a promoção foi cancelada. De toda forma, não ganhariam o prêmio.









Ela apagava as fotos, com esperança de que o passeio durasse para sempre.

Hersheys.

Ao leite, crocante, ovomaltine.
De que adianta?
Com nozes, avelã ou passas.
Pra quê?
Branco, napolitano, amargo.
Amargo.
O único sabor que conheço.

Natália Penelas

Café da manhã

Depois de alguma discussão, decidiram que filme assistir.  Três horas depois da conversa, meia hora atrasado, ele aparece para busca-la, dizendo que a reunião se estendeu mais do que o esperado. Ela não se importou, entrou no carro e beijou o rosto dele como sempre fazia.
Chegaram correndo ao shopping, com medo de perder a sessão. Por sorte, quando entraram na sala, recém iniciava as propagandas antes do filme. Ele correu ao bar do cinema e voltou com seu refrigerante e uma barrinha de chocolate Suflair para ela. Ela desejou durante todo o filme que ele a abraçasse, segurasse sua mão, encostasse a cabeça em seu ombro, mas nada aconteceu.
O filme era ótimo, aquele último do Almodóvar que os amigos tanto comentavam, e eles saíram discutindo animadamente da sala do cinema.
A caminho da casa dela - a carona de volta, ele avisa que precisaria passar antes em sua empresa, porque havia esquecido umas compras por lá. Subiram juntos, ele queria que ela conhecesse onde trabalhava. Ela não sabia como se portar, se era certo ou não elogiar, mas mesmo não sabendo, deixou claro que havia gostado de conhecer o lugar. Ela não esperava mais por nenhum tipo de intimidade, apesar de secretamente desejar. Haviam decidido ser só amigos. Na verdade, ele havia decidido e ela acatou.
Depois de conhecer tudo, ele busca sacolas de supermercado na cozinha da sala comercial, e comenta:
 - Comprei isso para o teu café da manhã.

26 maio 2011

Chocolicias e Palavras




Palavra: Vicio
Vicio: Chocolate




@marceloinverso
Ferramenta: http://www.wordle.net

22 maio 2011

Tudo é tão feroz e doentio

Ninguém sabe o que é ter câncer.

Você não pode deter a iminente tomada de pânico após ouvir o diagnóstico. A morte é algo que provém do irracional, então todas as palavras que com ela caminham trazem a nós a perda de controle, além da incerteza sobre nossa real relevância neste mundo. Foi absolutamente detestável a aparente comoção do médico, escondendo um enraizado desleixo, ao mostrar-me os exames. Crescimento de células jovens, é preciso de um tratamento imediato, comunique a sua família, por favor, você precisará de apoio, não será fácil a partir de agora, é uma doença que costuma acometer os novos tanto mais quanto os velhos. Como foi detestável a sua autoridade medicinal, asséptica; de bigode branco me encarando jovem; quantas mortes ele já testemunhou? e deve estar matutando se durarei ou não, como hei de ser sem meus cabelos, se capaz de extrair um profundo sentido com a aproximação da Bela.

Mesas de vidro sempre me deixam deveras nervoso, toda a exposição das pernas em uma sedução fantástica, a maneira de cruzá-las e colocar a postura, o modo de apresentar-se perante um desconhecido, encaixando braços, as mãos juntas ou uma em cada perna. Ao saber-me com câncer, detestei ainda mais a minha desnudação para um velho de bigode branco. Ele se tem com o poder, visto que é quem conhece do meu corpo sem nunca o ter visto, sabe da minha postura porque conhece centenas de outras que já passaram por sua sala do nono andar e, mais do que tudo, sabe do meu fim porque sabe da minha vida. Meu corpo me trai e me mostra a um qualquer, ele é um qualquer, doutor asséptico e prepotente, com bigode e avental brancos, a mesa envidrada e a estante de madeira de reflorestamento cheia de livros médicos e do Moacyr Scliar, provavelmente alguém em quem se espelhou enquanto estudante. Naquele consultório em uma tarde chuvosa de maio eu pude ter nojo do mundo, porém muito mais do doutor à minha frente: na cadeira dura eu fazia o papel de um doente terminal. Só isso que eu era, todo o resto atirado às favas; jovem, universitário, tenho pai e mãe e um irmão do qual nunca fui amigo... eu cheio de amigos que me confortam e me agregam, sentindo o nexo da vida a partir dos meus sentidos que me passam a perna, coitados e infiéis, me traindo e me matando com a multiplicação de células blásticas que pouco a pouco vão me tomando a medula óssea, matando e matando e matando; a partir de agora a morte no cangote.

Vontade de sair dali e me atirar no chão da sala e chorar até ficar em uma pose miserável, uma mão sustentando o corpo e a outra apertando o peito, o pranto tão grande que o choro mal sai, a boca só abre e resta o silêncio da passividade em relação a tudo o que abraça, cachorros que me lambem e fazem ruídos que lembram miados e eu juro que tudo o que queria era voltar ao momento em que abria uma barrinha de chocolate antes de entrar no consultório branco, asséptico, alegre ao degustar a gordura e o cacau na embalagem colorida da vaquinha que dá leite, tudo é tão sagaz e doentio, efêmera a minha fala que, não posso postergar, tenho certeza de que não ficará, minha existência fadada à memória dos outros. Nunca gostei de depender de alguém além de mim mesmo e agora é comigo que não posso contar. Será que o cobrador do ônibus que pego dará falta por mim quando eu morrer? Talvez devesse dar um presente para que se rememore, é egoísta, sim, mas o que é a natureza, não exijo que se lembre de minha pessoa, meus traços e maneira com que punha a cabeça na janela, só que rememore daqui a um, cinco anos, que um jovem desconhecido um dia deu-me uma barra de chocolate e foi tão educado, como há pessoas boas no mundo. Que ele ainda mantenha esperança no mundo porque a minha vai fadar e fadar com a existência.

Acho que não duro muito, o tom de voz usado pelo doutor não me deu muita esperança. Espero pelo menos que isso não seja fruto de uma personalidade doentia que se agrada em testar maneiras com que desconhecidos recepcionam a morte, talvez ele tenha um caderninho com nomes daqueles que sobreviveram, quem há de saber? Tantas vezes que disse a a palavra câncer mas nunca soube efetivamente o que é, jamais experimentou a degradação da carne e do ser, a angústia da espera, da certeza de algo que chegará mas não se sabe quando. Quando pequeno, impacientavam-me muito os dias anteriores à viagem de férias, qual a praia a ser escolhida, a ansiedade em fazer a mala e escolher o que levar para o outro lugar. Hoje, mais velho e com mais paciência, fico outra vez à espera da viagem sem saber o que colocar na mala. Angústia que raiva e dilacera, como eu queria voltar a degustar o chocolate da mesma maneira com que degustava dias atrás...

19 maio 2011

o prédio mais alto

Fico pensando na aproximação. Se a gente chegasse mais perto. Encostasse as mãos e falasse do que não fosse programado - do que não fosse esperado que nós falássemos. Ele é alto, vê as pessoas de cima. Como será? Não será como subir no terraço do prédio mais alto. Mas a distância - a mesma? Entre nós. É programado. Nossas palavras, os sons que nós emitimos chegando aos ouvidos do outro, os lábios abrindo e fechando, as línguas mexendo-se na boca, os olhos passeando como sentissem medo de se encontrar e ali permanecer, os movimentos calculados que dão certo pra ele e errado pra mim. Mas é programado. O coração batendo rápido era mentira, imaginação. E acreditar na imaginação torna-se a verdade imaginária. Também são verdades. Mas o coração batendo era mentira. Visto por uma fresta, entre as portas e as janelas. E a pele morena e as roupas pretas. Passeando de longe logo ali. Eu fico pensando nos encontros. Se a gente criasse uma relação diferente, em que o que nós somos programados para fazer não existisse. Se a gente dissesse. E ouvisse o mesmo som de uma noite. Se a gente tocasse. E sentisse a mesma textura que emana das vozes graves suaves. Não saímos da linha por um instante. E se saímos - eu não sei. Como seria? Prazer. Como chocolate.

17 maio 2011

As coisas que eu mais amo na vida!

As coisas que eu mais amo na vida são café e chocolate. Poderia dizer que é a cafeína, por ser o mínimo múltiplo comum entre eles, mas não me parece tão poético.

Claro que meus prazeres não acabam aí. Vivo uma ânsia diária insassiável por conhecimento, que me consome a cada nova descoberta, nunca cessa, nunca me satisfaço.

‘’Sem fastio, com fome de tudo’’. Tendências consumistas? O que for, são os três ‘’cês’’ como alimento de organismo e de alma. Meus três vícios.

Pensando nisso, descobri que meus dias têm sido à procura dos meus pequenos prazeres enquanto deles me alimento. O café e o chocolate, comprovadamente estimulantes, tiram o meu sono, eu anseio conteúdo, logo, vou atrás de novidades sobre música/cinema/pessoas/livros/festas/moda/qualquer coisa que me interesse, regado a mais café e (quem dera, antes fosse) mais chocolate.

Os três, diariamente, num círculo vicioso, numa rotina incansável.O que soa irônico, para quem odeia rotinas, essa é a única que consigo manter, a única que eu suporto, e é aí que se encontra a mais sublime designação de amor.

A conclusão dentre tantos cafés, chocolates e conhecimento – ou a busca por (isso que eu nem citei os chás) é a de que pareço uma louca velha mal-comida e que nesta vida me falta um Cadu.