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12 maio 2009

Música para seus ouvidos

Até meus nove anos fui como a maioria das crianças, um garoto arteiro. Subia em árvores enormes, jogava bola no meio da rua, desmontava meus carrinhos de fricção para ver como era por dentro, jogava pedra nos gatos da vizinhança, queimava formigas com lupa, enfim, fazia tudo aquilo que as mães não gostavam. Minha mãe ralhava comigo, me dava uns beliscões e até algumas palmadas quando eu passava do limite, mas nossa relação era a melhor possível, eu era o companheiro dela, eu a protegia, eu cuidava da minha mãe e ela cuidava de mim.
Foi no dia que completei nove anos que minha mãe morreu. Foi atropelada quando voltava do supermercado de manhã cedo, ela trazia as compras para minha festinha. Foi o dia mais triste da minha vida. Como éramos só nos dois tive que ir morar com meu pai.
Meu pai nunca foi presente em minha vida, eu o via umas duas vezes por ano, ele tinha outra esposa, outros filhos, morava em outro estado e a mãe sempre disse que ele trabalhava muito. Quando a gente falava por telefone, o que também era raro, ele sempre dizia que me amava e que estava com saudades. Nunca senti muita falta dele, minha mãe supria todas minhas necessidades de carinho e amor.
Com duas semanas na casa nova eu já tinha noção do que me esperava. O pai saía para o trabalho bem cedo e voltava só na hora da novela, Os irmãos como eram mais velhos estudavam de manhã e ajudavam o pai na oficina de tarde, minha madrasta cuidava da casa e agora também cuidava de mim. No começo ela me dava algumas chineladas, eu chorava de raiva, pois não fazia nada que merecesse apanhar, passado um mês usava um cinto velho para meu castigo, eu segurava o choro até explodir, até que um dia ela encontrou aquele relho na garagem e eu nunca mais chorei, rezava em meus pensamentos para ela cansar de me bater.
No começo ela inventava algumas desculpa para me dar as surras, desde o copo quebrado até o tênis guardado fora do lugar, do bocejo na mesa até uma resposta que ela não gostou de escutar. Depois ela já nem se dava ao trabalho de me explicar porque eu ia apanhar.
Já era uma rotina, depois do almoço eu ia para o quarto estudar e ela ia lavar a louça. Quando eu escutava o fechar da torneira era esperar dez minutos e ela vinha. Trancava a porta e começava a sua diversão, dizia que se eu contasse algo ela me mataria. O relho esfolava minhas pernas, lanhava minhas costas, a dor era insuportável e eu procurava em seus olhos algum motivo para aquilo, nunca descobri, mas acho que o barulho do estalar do couro na minha pele era música para seus ouvidos.

04 maio 2009

gracias totales.

Y cuando el mundo enmudece
y las promesas engañan
nos revolcamos en el jardín por donde nadie pasa
del fuego vino el diluvio
la nave vuelve a partir
y mi alimento son las cenizas de una noche larga.

Os versos intensos eram aqueles que a Moça mais queria desabafar. Ela sentia que as coisas ainda não estavam esclarecidas e que aquilo não poderia continuar para sempre. Se a Moça dirigisse, poderia ela seguir seu(s) caminho(s) pelas ruas caóticas e sujas cantando em voz audível para ela mesma.

No entanto, só o mp3 a confortaria naquele momento, com um punhado de músicas com muita energia de uma banda que fez e teve a sua história. Para a Moça, bastava. Ela ainda não dominava direito as músicas e seus significados (e o espanhol dela não era tão razoável como julgava), mas sua dificuldade não era aprender letras.

(algumas dezenas de horas depois...)

En el comienzo fue un big-bang y fue caliente
revolver, revolver...
sobre los títulos vi caer tu nombre
y reaccioné, reaccioné.

A tal reação da Moça não foi nada feliz. Sempre (?) custará a ela viver como ela vivia no começo big-bang. No entanto, ela entende os motivos e sim, quer que os problemas sejam resolvidos longe dela. O bem e o carinho daquele que mudou muita coisa na vida da Moça são o que ela mais deseja. Nem que seja carinho de amigo, mas enfim, duradouro.

03 maio 2009

E porque não falar dos porcos

Epidemia, pandemia, nível cinco, seis, tanto faz. Eu vejo a música como uma epidemia, uma epidemia que ainda não acabou e que não tem previsão de vacinas nem de antídotos. Essa epidemia que se espalha como espirro dentro de elevador e tosse em sala de aula.
Acredito que no início esse vírus da música começou com alguém que estava cansado do silêncio, que viu e ouviu no som das pequenas coisas algo que podia ser belo. Ouviu o que ainda não tinha som, e transformou-o em melodia. Podia ser triste, feliz, dramática ou qualquer coisa, mas que tinha ritmo. O ritmo podia ser rápido, lento, com batuque, sem batuque, com cordas, sem cordas. Mas melodia, ritmo, algo que mexesse com a alma, que a transformasse, que a enchesse de coisas. Coisas boas, ruins, mas enchesse. Que suprisse certos silêncios, que a tratasse bem. Algo com que pudesse se expressar, para falar de si, das coisas, do mundo, ou só pra falar. Mas falar, transmitir. Assim como o virus, passar de um por um até que todos pudessem compartilhá-la. Essa epidemia que foi crescendo com reagge, rock, pop, indie, grouge e todas as categorias e subcategorias que você pensar, e principalmente, quiser.
E aí fico pensando no que virou a música hoje em dia. Se ela é feita mais para encher a alma ou o bolso de quem a cria. E olha que Guy Debord já falava da tal Sociedade do Espetáculo há tempos atrás. Acho que muito se perdeu nessa modificação do vírus música. Perdeu o que sempre acreditei ser o principal, a expressão das pessoas, e ainda, a intenção destas. Sempre vi a música como forma de expressão, por isso não condeno o funk e essas músicas que tanto fazem sucesso no youtube. Não iremos e talvez, (já explico meu talvez) não podemos comparar Bethoven (e agora ele se revira no túmulo) com "cada um no seu quadrado" em termos técnicos e de conhecimento, mas os dois estão no mesmo patamar (e agora que caiam raios da minha cabeça) na questão da expressão. E é isso que me consola ao ouvir as músicas que tocam nas rádios hoje em dia (na maioria delas), a musiquinha que rima com bonitinha e assim vai. Ambas querem dizer algo. Eu sei que estou pensando positivo, tentando achar alguma coisa útil que possa ser considerada na música "Cada um no seu quadrado" por exemplo, mas as duas queriam falar alguma coisa, se expressar, falar a quem quisesse ouvir, seja em forma de sinfonia muito bem estudada, ou em vídeo-tosco-que-da-ibope no youtube.
Hoje as novas epidemias que surgem semanalmente se baseiam na imagem, nas roupas, acessórios, maquiagens, cabelos esquisitos (e quanto mais esquisitos melhor!), músicas que sejam diferentes, ritmos quebrados, com referência em grandes astros do passado, mas que no fim não tem nada a ver uma coisa com a outra. Na grande maioria é isso, é uma Sociedade do Espetáculo que Debord já falava, é o show mais do que a música (será que Bethoven precisaria de um canal do youtube para se tornar conhecido?).
A conclusão que chego depois desse meu apontamento conturbado, é que os tempos mudaram sim, e as formas de expressões estão muito mais ligadas à imagem, seja ela visual e até sonora, do quanto mais, melhor. Quanto mais justo (falo das calças), quanto mais bizarro (falo dos cabelos), quanto mais barulhento (falo da bateria e das guitarras), quanto mais tecnológico (falo dos efeitos sonoros), quanto mais tudo (falo do esganiçado), mais será vendido, mais será aceito pelos pré e pós adolescentes. Este público que leva uma geração nas costas, que cria ideias, que faz história, e que principalmente, que tanto se expressa.
No fim espero que esta epidemia continue, porque se é mais difícil criar qualquer coisa comparável aos grandes monstros sagrados da música, hoje em dia é mais difícil criar algo que seja diferente, que inove, pois esse é o objetivo das novas bandas que se criam na garagem da tia do vizinho, e que depois caem direto para a internet, inovar, ser diferente, independente do quão ridículo você precisa ser para que isso aconteça. Se antes a música enchia nossa alma pela sua melodia, pelo seu ritmo, que pelo menos hoje ela encha nossa vida com um pouco mais de risos, seja com um vídeo no youtube, seja olhando o vestuário de quem as canta ou seja pela sua criação em si, de uma melodia ritmada com os barulhos de uma nova sociedade do espetáculo.


29 abril 2009

Duas músicas

Não sei tocar instrumento. Até arrisco cantar - um pouco. Ouço música o tempo todo e sempre estou com alguma na cabeça. Não conheço a música, mas acho que ela me conhece. Pode ser rock, jazz, reagge, clássica...
Enfim, melodia que toca... me toca, me dá passos, me faz dançar.Durante a tarde, o pássaro canta, a chuva bate na janela, a criança grita na pracinha, o elevador chega no andar, a página é virada, alguém digita no computador, a moto passa...
Música do cotidiano que passa despercebida.
Grita, suspira, chora, clama, ri.
Melodia da vida.